Por Redacção
Elie Cohen, um dos mais refinados espiões do mundo, é dono de uma história apaixonante, comovente e inteligentemente admirável. O percurso de Cohen é nada mais que invejável.
O jovem que conheceu a morte por enforcamento na Síria foi recrutado pelos serviços de inteligência israelense e é até aqui conhecido como o espião mestre em Tel Aviv. As precisas e preciosas informações que enviava do território sírio para Israel foram fundamentais para a vitória dos hebreus na famosa guerra dos seis dias.
Nascido no Egito, onde seus pais, provenientes de Alepo – Síria, estabeleceram-se à procura de um futuro melhor, Elie Cohen, recrutado pelo Mossad no início dos anos sessenta, tornou-se rapidamente um dos mais extraordinários agentes do serviço secreto israelense. Foi formado por um grande mestre: segundo certas fontes não confirmadas oficialmente, Itzhak Shamir teria sido seu principal instrutor.
Inicialmente, foi enviado para Argentina onde, durante um ano, forjou no seio da poderosa comunidade Síria local, sua identidade de empresário brilhante e patriota entusiasmado. Alegando saudades da sua terra, estabeleceu-se em Damasco, onde se tornou rapidamente amigo dos principais representantes dos mais altos escalões políticos e militares, membro ativo do partido governista Baath e íntimo do presidente da Síria, à época, Amin El Hafez.
As preciosas e minuciosas informações que transmitiu, por anos a fio, diariamente, via rádio, para Israel foram essenciais na ocasião da tomada do Gola, ocorrida em junho de 1967 e permitiram que Israel soubesse de primeira mão tudo o que acontecia na cúpula do poder da Síria.
Elie Cohen morreu enforcado na madrugada de 18 de maio de 1965, em damasco, numa execrável cerimônia pública transmitida ao vivo pela TV Síria.
Nádia exige a Assad a devolução do corpo do esposo
Enquanto isto, em Bat Yam, subúrbio de Tel Aviv, a esposa, Nádia Cohen - pálida e tensa, face a situação a que o esposo estava votado, seguia atentamente cada palavra no rádio e cada cena na TV.
Para Nádia Cohen, os últimos três meses, desde que seu esposo Elie havia sido preso, foram um pesadelo entre a maratona vertiginosa na tentativa de salva-lo da pena de morte e a sutil esperança que a mantinha viva.
Entretanto, quando Elie morreu, ela tinha 29 anos e três crianças pequenas: Sophie de quatro anos, Íris de dois e o pequeno Shaul, de apenas alguns meses. Sua situação financeira era desastrosa.
Hoje, trinta e tal anos depois, Nádia faz um balanço de sua vida. Os anos felizes em que o casal viveu junto foram poucos e passaram como um relâmpago. O destino lhe reservou uma dura realidade de trinta pesados anos de solidão, sem ninguém para aconselha-la, orienta-la ou dividir com ela a responsabilidade da educação das três crianças.
Hoje os filhos, a quem Nádia se dedicou inteiramente, estão criados, casados e vivem perto da mãe, que desfruta da companhia dos seus quatro netinhos.
Lembrar de Elie lhe desperta ainda a mesma dor e emoção. Conheceram-se em 1959. Ele estava com trinta e quatro anos e tinha chegado a Israel, do Egito, havia apenas dois anos. Casaram-se depois de um breve namoro e, um ano depois, nasceu a primeira filha. Elie já devia estar trabalhando para o serviço secreto pois, quatro meses depois, em 1960, foi à Argentina construir a sua "fachada".
Alegava à família que viajava à Europa para comprar peças de armamento e que logo esse período passaria e eles estariam novamente reunidos. Ninguém podia duvidar de suas palavras. Era uma pessoa otimista, calma e amorosa, que tinha grande prazer no convívio familiar.
Em 1961, depois que Elie voltou da primeira missão em Damasco, Nádia começou a desconfiar da aura de mistério que cercava o trabalho do marido e a estranhar as maneiras cada vez mais orientais e as atitudes cada vez mais árabes do seu companheiro, enquanto ele parecia tão europeu quando se casaram. Nádia imaginava que Elie estivesse trabalhando no Egito, e nunca na impenetrável Síria, embora ele tivesse começado a falar com sua mãe em dialeto sírio.
Em Março de 1963, uma revolução na Síria levou ao poder o partido baath e à presidência Amin El Hafez. Os melhores amigos de Elie Cohen aliás Kamel Amin Tabet, tornaram-se ministros e Presidente da República.
Em 1961, depois que Elie voltou da primeira missão em Damasco, Nádia começou a desconfiar. E agora, era o próprio partido e seus líderes que precisavam de pessoas como Elie, de seus conhecimentos e dinheiro. Se antes era ele quem se esforçava para agradar o regime, agora parecia ser o contrário. As informações fluíam livre e espontaneamente e ninguém hesitava em revelar-lhe o que sabia. Esperavam que ele usasse sua influência no exterior para arrecadar dinheiro e ajudar a consolidar o partido e o país. Foi o único civil convidado, por três vezes, a visitar as fortificações das fronteiras com Israel.
Elie começou, então, a transmitir para Israel com maior frequência informações preciosas sobre operações estratégicas, planos de armamento e posições das áreas de defesa.
Algumas das notícias por ele transmitidas eram divulgadas pela imprensa ou pela rádio israelense, antes ainda que fossem do conhecimento das lideranças sírias.
Quando o presidente El Hafez descobriu que havia um vazamento de notícias da cúpula do regime, ordenou uma investigação secreta para desmascarar o traidor.
Em outubro de 1964, Elie sentiu que seus amigos estavam tornando-se cada vez mais fechados e que havia um clima de desconfiança geral. Assim, preferiu sair da Síria e voltar para sua casa. Foi sua última volta ao lar. Teve a felicidade de estar presente durante o nascimento de seu filho Shaul e de seu Brit Milá. Estava triste e manifestou o desejo de interromper suas viagens constantes, mas estava comprometido até maio de 1965. Assim, duas semanas depois, voltou à Síria, onde foi recebido friamente pelos seus amigos.
Esforços de Israel para salvar a pele de seu querido espião foram infrutíferos
Em janeiro de 1965, enquanto Elie Cohen transmitia informações para Tel Aviv, foi detido pelas autoridades sírias que o localizaram graças a um blecaute, que havia sido instaurado secretamente.

Ninguém queria nem podia acreditar que Kamel (Elie), o querido do governo, candidato a ministro do partido Baath, milionário invejado por todos e admirado filantropo fosse um espião israelense. Assim que Elie foi preso, Israel iniciou uma campanha sem precedentes para salvar sua vida. Nádia foi mandada a Paris com suas crianças e liderou uma gigantesca conferência de imprensa, na qual declarou que seu marido era vítima de uma conspiração e que faria qualquer coisa para salva-lo.
A foto de Nádia com as crianças no colo conquistou a simpatia da França e de toda Europa, e sensibilizou a opinião pública. Para defender Elie, foi contratado um dos principais advogados da França, Jacques Mercier. Este, apesar de não ter poupado esforços, nunca conseguiu ver o acusado nem durante os interrogatórios ou durante o processo, e nem mesmo antes da execução. Das autoridades sírias, somente recebeu portas fechadas e promessas não cumpridas. O processo foi uma farsa: na única pessoa do oficial de justiça se concentravam os papéis do juiz, do investigador, e do acusador; Elie Cohen, não tinha defesa. Além do mais, no intervalo das sessões, era brutalmente torturado.
Quando a sentença de morte foi oficialmente pronunciada, Israel agitou novamente sua máquina de propaganda e mobilizou todas as conexões possíveis.
Intercederam a favor dele o Papa Paulo VI, o General de Gaulle, a Rainha-mãe da Bélgica, vários primeiros-ministros, ministros e políticos do mundo inteiro e organizações como a Cruz Vermelha. A Anistia Internacional mandou o seguinte telegrama a El Hafez: "Cohen não é um cidadão sírio. Nos países civilizados, espiões estrangeiros não são executados. Não houve nenhum caso de execução de espiões sírios presos em Israel". Mas a Síria ficou insensível a todos os apelos. O governo, profundamente enfraquecido, não podia ceder às pressões externas; ao contrário, queria embriagar com este caso as massas sedentas de sangue. No dia marcado para a execução, Elie pediu a presença de um Rabino e deixou uma carta para Nádia e às crianças.
"Minha amada Nádia, minha querida família,... espero que vocês continuem sempre juntos. Peço à minha esposa que me perdoe, que se cuide e que dê aos nossos filhos uma boa educação... Virá um dia em que eles se orgulharão de mim. E você, querida Nádia, está livre para casar de novo e dar a nossos filhos um pai. Peço-lhe que não chore o passado, mas olhe para o futuro. A você, mando meus últimos beijos. Reze pela minha alma". Imediatamente depois, Elie ficou sozinho com o grão Rabino de Damasco, Rav Nissim Andabo, e rezaram juntos "El Male Rahamim". O Rabino saiu de lá, com os olhos cheios de lágrimas.

Elie foi levado à praça, onde seria realizado o enforcamento. Havia centenas de pessoas enfurecidas, gritando: "Morte ao espião sionista". Elie subiu na forca como um herói, de cabeça erguida, orgulhoso e calmo. Nunca soube dos esforços feitos pelos seus familiares, pelo seu país e pelo mundo inteiro para salvar sua vida. As autoridades sírias sempre negaram a restituição de seu corpo a Israel. Recentemente, no trigésimo aniversário da sua morte, Nádia fez um último apelo em vão, ao Presidente Assad, para que ele lhe devolvesse os restos do marido. A contribuição de Elie Cohen para a vitória de Israel na guerra de 1967, foi decisiva. Sem este herói, e sua coragem é provável que a história tivesse seguido um outro rumo.
Nunca, ao longo dos seus 240 anos de independência, o sistema eleitoral dos Estados Unidos da América ficou tão negativamente exposto como no presente momento. Pior em tudo isso é que o presidente eleito Donald Trump, por ignorância ou por maquiavelismo acrquitectado contra o Estado norte-americano, faz descaso do perigo que tal representa.
Entretanto, é óbvio que o empresário Trump é um cidadão americano por naturalidade, pois nasceu a 14 de Junho de 1946, na cidade de Nova Iorque, mas a sua indiferença em relação a superioridade nos últimos dias revelada pela Federação russa sobre os EUA geram dúvidas sobre os seus principais objectivos.

Ora, há muito que os russos dão mostras claras de pretender arrastar os Estados Unidos da América para uma guerra, mas a referida superpotência tem agido com diplomacia aos insultos quase imperdoáveis. A administração de Barack Obama foi a pior em relação a ameaça supracitada.
Jamais os americanos se queixaram tanto sobre ciberataques advindos da Rússia como nos dias que correm. Para dramatizar ainda mais a consciência colectiva, o Serviço Central de Inteligência (CIA) acusa a Rússia de ter intervindo no processo eleitoral americano com o propósito expresso de ajudar o candidato republicano.

Por sua vez, Donald Trump (como americano conservador/de gema), ao invés de se predispor a colaborar com as investigações, insurge-se contra a CIA, descredibilizando o trabalho levado a cabo pela referida agência de inteligência. O empresário se limita a lançar farpas aos democratas, acusando aquela prestigiada agência de inteligência de parcialidade, esquecendo-se, obviamente, que são os republicanos que mandam nos serviços de inteligência e noutros órgãos de defesa e seguranças americanos.

“Esta teoria é ridícula. Não acredito nas conclusões da CIA de que a Rússia realizou ataques informáticos para me ajudar a vencer as eleições Presidenciais norte-americanas de 8 de novembro. Eu penso que os democratas estão a impulsionar este assunto porque sofreram uma das maiores derrotas na história dos Estados Unidos", diz Donald Trump, que tal como se revela indiferente pela descredibilização das instituições americanas, não se dá ao luxo de tecer algumas considerações sobre as matanças levadas a cabo pela Rússia na cidade de Alepo, onde as mães pretendem matar as próprias filhas para salvarem-nas das constantes violações sexuais.

O acordo conseguido de forma quase incondicional pelo regime de Assad é uma clara vitória da Rússia e do Irão sobre os EUA e a União Europeia que publicamente apoiaram o grupo rebelde. Mas tal parece insignificante para Trump. Portanto, é um sonho para os russos ter um infiltrado que se torne figura importante no aparelho de Estado norte-americano e vice-versa. Pois, o Estado israelense teve um que quase chegou a ministro na Síria.

A verdade porém, é que a simpatia manifestada por Donald Trump ao autocrático Vladmir Putin é repugnante e uma ofensa aos valores que os Estados Unidos dizem defender.
Passos Coelho
“Vem aí uma nova crise económica e financeira na União Europeia e ainda não estamos preparados para a enfrentar” avisou Pedro Passos Coelho, presidente do PSD/Portugal, na manhã de hoje, no debate sobre o futuro da Europa, no Porto.

O debate foi promovido pelos eurodeputados do Partido Popular Europeu (PPE) Paulo Rangel e José Manuel Fernandes. Na sequência, o líder social-democrata voltou a dramatizar o discurso, recuperando o alerta, feito em julho passado, de que "Vem aí o diabo". Um medo que persiste em Pedro Passos Coelho, apesar dos positivos recentes indicadores económicos.

"Temos quase a certeza que haverá uma nova crise. Queremos estar preparados para quando isso acontecer mas ainda não estamos", avisou o líder social-democrata, nesta manhã de sexta-feira, no debate que ainda decorre no Palácio da Bolsa, no Porto, sob o tema "Europa: que futuro?".

Passos Coelho não especificou para quando espera essa nova crise económica e financeira. E, desta vez, escusou-se a mencionar a palavra "diabo". Disse apenas que "ainda falta completar a reforma económica da União Europeia". E, no final do debate, recusou-se a prestar mais esclarecimentos aos jornalistas. Na sua intervenção, avisou ainda a família "social-democrata" para os riscos do populismo, vindo, em Portugal, da "Extrema-esquerda e da Esquerda radical".

Para Passos Coelho, um dos desafios da União Europeia é precisamente combater esse "populismo", alimentado por acontecimentos como o Brexit e as eleições norte-americanas, que têm servido para se colocar a tónica "na fraqueza, para não dizer deceção, do projeto europeu". "É isso que tem estado a alimentar, a trazer combustível para o populismo. Não temos sido suficientemente eficazes a combater essa perceção", declarou.

Para Portugal se "aproximar da média da União Europeia", tem, por isso, que resistir ao "populismo" e mudar as suas "orientações políticas". "Não a nossa opção de permanecer na Europa", vincou, num recado com um remetente indireto: o PCP e o BE. Se as "orientações" mudarem, "os próximos anos vão trazer resultados melhores do que aqueles que estamos a alcançar", enfatizou, desvalorizando, assim, as metas já conseguidas pelo Governo da "geringonça".


É que, para Passos Coelho, Portugal tem " desperdiçado muitas oportunidades", ao nível do aproveitamento de fundos comunitários. "Nem sempre aproveitamos da melhor forma", admitiu, reiterando, por isso, a necessidade de se alterarem as "opções políticas".

Rui Ramos

O mundo que está a nascer em Aleppo

Por Rui Ramos 

As pessoas despedem-se, as crianças pedem para serem poupadas, e o mundo olha com a mais imperturbável indiferença. Bem sei: tudo é mais complexo do que algumas imagens dramáticas dão a entender. Mas noutros tempos ou noutras circunstâncias, nunca a complexidade dissuadiu clamores, protestos, manifestações. Talvez as crianças, as mulheres e os homens de Aleppo tenham apenas tido azar: o azar de estarem a ser bombardeados pela ditadura de Assad com a ajuda da Rússia de Putin, em vez de serem atacados, por exemplo, por Israel com o apoio dos EUA. Se fosse este o caso, não faltariam moções, votos, marchas. Mas não se trata apenas daquela velha duplicidade de critério que, desta vez, até um autor do radicalismo reconheceu. Há, aqui, algo de mais fundamental.

Aleppo é o resultado do desligamento dos EUA em relação ao mundo. Não é fácil apagar a pegada de um país que produz um quinto da riqueza mundial. Mas é possível, como fez Obama, reduzir a disponibilidade americana para tomar as dores dos outros. Após a controvérsia do Afeganistão e do Iraque, Obama reduziu as intervenções americanas a campanhas secretas, geralmente com drones. Ainda incitou as Primaveras Árabes, mas de longe — e apenas para deixar os manifestantes entregues à sua sorte. Na Síria, Assad pôde pisar todas as “linhas vermelhas”. Trump promete não ser diferente com o seu slogan “America First”. Os EUA parecem estar a conformar-se, tal como as potências europeias antes deles, com um mundo que não podem transformar. Mas isso tem consequências para o interesse ocidental pelo resto do mundo.

Durante décadas, os EUA viveram a ilusão, que já tinha sido a das potências europeias, de que deviam e podiam corrigir o mundo. O “fardo” da Inglaterra tornou-se o “destino” da América. Foi assim durante a Guerra Fria, mas também depois do 11 de Setembro. E numa espécie de providencialismo invertido, muitos ocidentais estiveram convencidos de que o célebre “imperialismo americano” era o único obstáculo à paz e à harmonia no planeta: sem os EUA, não haveria na terra nem ditaduras, nem guerras, nem, a acreditar no falecido Hugo Chávez, terramotos.

Mas da última vez que o mundo viveu sem a América, nos anos 30, não foi assim. Foi o tempo em que Estaline atacou a Finlândia, em que o Japão invadiu a China, e em que Hitler desfez a Checoslováquia – um mundo de anexações e correcções de fronteiras. Vão dizer-me que agora temos a ONU? Não mo digam mim, digam-no à população cercada em Aleppo. Nos anos 30, também havia a Sociedade das Nações. Só a força dos EUA permitiu que fingíssemos que havia uma lei e uma comunidade internacional. Os EUA também cometeram erros e crimes? Sem dúvida, mas esses erros e crimes foram denunciados nos EUA, discutidos nos EUA, julgados nos EUA. O mundo teve a sorte de a sua maior potência, desde há quase um século, ser um Estado de direito democrático e pluralista.

O desprendimento dos EUA não resultará apenas num mundo onde a razão e o direito não têm força. Resultará num mundo que, talvez por isso, nos começa a deixar indiferentes. Ontem, o New York Times veio muito espantado por os rostos e as vozes de Aleppo parecerem comover tão pouca gente. Mas sem os EUA, isto é, sem o sentimento de responsabilidade pelos outros sugerido pelo poder americano, o resto do mundo ameaça perder sentido para os públicos europeus e norte-americanos. Os EUA não estão em Aleppo? Não queremos saber de Aleppo: são todos maus, é tudo muito complicado. Começámos assim a ver em Aleppo o que será o mundo sem os EUA: um mundo sem lógica e sem interesse.
Pela primeira vez a paz chegou à Síria desde o início das hostilidades militares em 2011. Com ajuda da Rússia que obviamente pretende firmar o seu poder sobre às potências ocidentais e o mundo, Bashar al-Assad e suas tropas impuseram uma derrota militar significativa, forçando os rebeldes apoiados pelos americanos e países da União Europeia, (sob um fingido acordo mediado pela Turquia) a debandarem-se da zona, deixando suas armas, esposas e filhos, face a contundente realidade. Infelizmente, os civis são as principais vítimas, das quais, as mulheres continuam a ser as prediletas para os soldados do regime.
Na verdade, o suposto acordo dá a sensação de que se pretende dividir o país, pois os rebeldes estão no leste da Província de Alepo. Entretanto, bem mansinhos. Ora, a guerra na Síria é resultado de uma manifestação popular (tal como ocorreu na Líbia, Egipto e Tunísia) iniciado precisamente a 26 de janeiro de 2011.

O simples acto de protesto contra a governação de Assad que substituiu seu progenitor que administrou o país por mais de 30 anos, evoluiu negativamente para uma violenta revolta armada em 15 de março de 2011, influenciados por outros protestos simultâneos no mundo árabe. Enquanto a oposição alega estar lutando para destituir o presidente Bashar al-Assad do poder para posteriormente instalar uma nova liderança mais democrática no país, o governo sírio diz estar apenas combatendo "terroristas armados que visam desestabilizar o país".

Com o passar do tempo, a guerra deixou de ser uma simples "luta por poder" e passou também a abranger aspectos de natureza sectária e religiosa, com diversas facções que formam a oposição combatendo tanto o governo quanto umas às outras. Assim, o conflito acabou espalhando-se para a região, atingindo também países como Iraque e o Líbano, atiçando, especialmente, a rivalidade entre xiitas e sunitas.


Porém, face ao alastrar da situação aparentemente sem fim, os soldados desertores e civis armados da oposição formaram o chamado Exército Livre Sírio para iniciar uma luta convencional contra o Estado. Em 23 de agosto de 2011, a oposição finalmente se uniu em uma única organização representativa formando o chamado Conselho Nacional Sírio.

A luta armada então se intensificou, assim como as incursões das tropas do governo em áreas controladas por opositores. Os EUA e os seus aliados da União Europeia declaram apoio aos rebeldes, inclusive, o presidente Obama aventava uma acção militar norte-americana contra o regime sírio, inconformada com a pretensão americana, a Rússia antecipou-se colocando meios e homens no terreno, forçando assim os EUA a recuar. Desde então, Putin intensificou as acções militares contra os rebeldes apoiados pelos americanos que agora se revelam cansados de tanta luta diplomática na zona.


Ignorando os apelos ocidentais e das Nações Unidas, a Rússia e o Irão manifestando força, continuaram a combater os rebeldes, onde civis (homens, mulheres e crianças) não eram poupados. No entanto, ontem foi a confirmação do poder russo sobre às potências ocidentais. O que é perigoso para o mundo que insistentemente vai assistindo a queda das práticas democráticas. Se a Rússia e o Irão decidirem continuar com as referidas acções em outros países em que o povo pretenda demover os regimes (seus amigos), será o declínio de nossas sociedades modernas e humanizadas.

Reginaldo Silva
Por Reginaldo Silva
Fonte: Redeangola
Ultrapassadas as crises internas de 74 e de 77 com o elevado preço de vidas humanas que se conhece, o MPLA tem vivido ao longo destas últimas cerca de 4 décadas, sob a batuta de José Eduardo dos Santos, um período de grande estabilidade em termos de liderança que se prolonga desde a morte de Agostinho Neto em Setembro de 1979.

De facto neste quesito, o da estabilidade interna, há mesmo muito poucos partidos em África que tenham esta performance. Acho que não há mesmo nenhum.

Ao que tudo continua a indicar, este período está a terminar, no âmbito da já anunciada transição, que culminará com a retirada da vida política activa a curto prazo/2018 do seu actual líder, que até lá vai continuar no posto de comando de todas as operações estratégicas do maioritário, mesmo que já não concorra às eleições presidenciais de 2017.

Este sábado não aconteceu no estádio 11 de Novembro aquilo que em princípio alguns de nós estava à espera que acontecesse, o que no fundo também era previsível que pudesse não acontecer.
Por isso, tivemos aqui o cuidado de, na crónica anterior, deixar bem aberta esta possibilidade, que se veio a confirmar e que acabou por ser a única novidade do 60º aniversário do MPLA a par da ausência do próprio José Eduardo dos Santos no tórrido local onde a celebração oficial teve lugar.

Aliás, também já aprendemos ao longo destas 4 décadas de observação do fenómeno político angolano, que com o MPLA as coisas são mesmo assim ou podem ser, particularmente quando a pressão externa aumenta.

São conhecidos adiamentos de algumas decisões que estavam iminentes, apenas para não se dar entender que elas foram tomadas na sequência de um conjunto de informações que davam o assunto como um dado adquirido.
Efectivamente o quilométrico, e algo indigesto, discurso de improviso proferido no “acto central” pelo Vice-Presidente do MPLA, João Lourenço, passou completamente ao lado do tema transição, que assim sendo vai continuar “engavetado” até um dia destes.

Se quisermos a grande novidade dos próximos tempos será a realização de uma auscultação junto das bases partidárias que, ao que consta, se deverão pronunciar sobre o conteúdo da “resolução interna” aprovada pelo Comité Central.

Com base numa proposta formulada pelo próprio Presidente do Partido, o CC aprovou os nomes de João Lourenço e Bornito de Sousa como sendo os candidatos para as eleições gerais de 2017 que o MPLA vai incluir na sua lista de deputados para o preenchimento dos cargos de Presidente e Vice-Presidente da República, caso, obviamente vença a disputa política mais importante deste país.

Assim sendo, temos em perspectiva não umas clássicas primárias a que alguns partidos fora e dentro de Angola já nos habituaram tendo em vista a nomeação dos seus melhores representantes às eleições presidenciais, mas sim umas “básicas” consultas com um objectivo que ainda não está muito claro em todos os seus contornos e motivações.

Em termos estatutários não há em principio nada que obrigue a direcção do MPLA a recorrer a este “mecanismo informal”.
O regulamento do MPLA é claro na atribuição desta competência, a de deliberar sobre a lista dos candidatos a deputados, ao Comité Central.
Um Comité Central, note-se, que foi eleito muito recentemente durante o Congresso ordinário do MPLA realizado em Agosto, o que reforça ainda mais a sua legitimidade para deliberar sobre esta e outras matérias.

Não se percebendo por inteiro qual é o quadro determinante da convocação destas “básicas”, as questões que se colocam seguidamente têm a ver com o impacto/tratamento dos seus resultados, sobretudo se eles vierem a contrariar a ideia da transição que está plasmada na “resolução interna” que será o tema da discussão.
O que parece ainda mais estranho nesta altura é que ainda não se ouviu ninguém de peso da direcção do MPLA a defender a deliberação do Comité Central, tendo mesmo a influente Joana Lina do BP, sido citada pelo Novo Jornal como tendo afirmado que “são as bases do nosso partido em todo o território nacional que vão decidir se o Camarada Presidente sai ou não”.

Diante desta declaração, como é evidente, estamos diante de um problema ainda mais complicado, se não houver aqui nenhuma encenação e se efectivamente a intenção de JES é mesmo abandonar o poder, após ter concluído, por várias razões, que este é o melhor momento, mesmo contra tudo e todos, de entregar o poder e sair nas calmas, com todo o aparelho ainda sob o seu controlo.

Ninguém está a ver como é que esta “consulta popular” pode resultar num voto favorável à saída do actual líder do MPLA, pelo que as coisas podem regressar à primeira forma, restando depois ao próprio JES tomar a última decisão.

O MPLA está assim a viver um momento particularmente sensível da sua história, onde o sentimento de orfandade já é uma realidade por antecipação, restando apenas começarem os choros e outras manifestações mais emotivas.

O receio pelo desconhecido parece estar a tomar conta de todos e a condicionar futuras movimentações.
Lembro-me quando foi da “prestroika” na ex-URSS em finais dos anos 80, durante uma “sessão de esclarecimento” realizada no Cinema Atlântico com a presença de um “camarada soviético” que veio expressamente a Luanda explicar aos “camaradas do MPLA” os novos rumos que o comunismo estava a seguir na “Pátria de Lénine” com a subida ao poder de M.Gorbatchev.

Lembro-me de uma alta responsável política da época questionar de forma algo angustiada o enviado especial de Moscovo sobre o que é que ia ser do próprio MPLA, “o que é que vai ser de nós”, diante de todas as mudanças que se estavam a registar na ex-URSS.

E porque será que será que me lembrei disto logo agora?
Conselho de Paz e Segurança da União Africana (UA) exige que o presidente derrotado das eleições na Gâmbia (Yahya Jammeh) aceite os resultados eleitorais que deram vitórias a Adama Barrow.


A UA rejeita veementemente qualquer tentativa de contornar ou reverter o resultado das eleições Presidenciais realizadas na Gâmbia, a 1 de Dezembro de 2016 que, para o Conselho de Paz e Segurança da União Africana representa a expressão clara da vontade popular e da escolha do povo gambiano e exorta ao Presidente cessante, Yahya Jammeh, a respeitar a letra e o espírito do seu discurso proferido no passado dia 2 de dezembro de 2016, no qual congratulou-se com a maturidade da democracia na Gâmbia e felicitou o Presidente eleito.
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