COHEN: O ESPIÃO ISRAELITA QUE QUASE CHEGOU A MINISTRO NA SÍRIA

Por Redacção
Elie Cohen, um dos mais refinados espiões do mundo, é dono de uma história apaixonante, comovente e inteligentemente admirável. O percurso de Cohen é nada mais que invejável.
O jovem que conheceu a morte por enforcamento na Síria foi recrutado pelos serviços de inteligência israelense e é até aqui conhecido como o espião mestre em Tel Aviv. As precisas e preciosas informações que enviava do território sírio para Israel foram fundamentais para a vitória dos hebreus na famosa guerra dos seis dias.
Nascido no Egito, onde seus pais, provenientes de Alepo – Síria, estabeleceram-se à procura de um futuro melhor, Elie Cohen, recrutado pelo Mossad no início dos anos sessenta, tornou-se rapidamente um dos mais extraordinários agentes do serviço secreto israelense. Foi formado por um grande mestre: segundo certas fontes não confirmadas oficialmente, Itzhak Shamir teria sido seu principal instrutor.
Inicialmente, foi enviado para Argentina onde, durante um ano, forjou no seio da poderosa comunidade Síria local, sua identidade de empresário brilhante e patriota entusiasmado. Alegando saudades da sua terra, estabeleceu-se em Damasco, onde se tornou rapidamente amigo dos principais representantes dos mais altos escalões políticos e militares, membro ativo do partido governista Baath e íntimo do presidente da Síria, à época, Amin El Hafez.
As preciosas e minuciosas informações que transmitiu, por anos a fio, diariamente, via rádio, para Israel foram essenciais na ocasião da tomada do Gola, ocorrida em junho de 1967 e permitiram que Israel soubesse de primeira mão tudo o que acontecia na cúpula do poder da Síria.
Elie Cohen morreu enforcado na madrugada de 18 de maio de 1965, em damasco, numa execrável cerimônia pública transmitida ao vivo pela TV Síria.
Nádia exige a Assad a devolução do corpo do esposo
Enquanto isto, em Bat Yam, subúrbio de Tel Aviv, a esposa, Nádia Cohen - pálida e tensa, face a situação a que o esposo estava votado, seguia atentamente cada palavra no rádio e cada cena na TV.
Para Nádia Cohen, os últimos três meses, desde que seu esposo Elie havia sido preso, foram um pesadelo entre a maratona vertiginosa na tentativa de salva-lo da pena de morte e a sutil esperança que a mantinha viva.
Entretanto, quando Elie morreu, ela tinha 29 anos e três crianças pequenas: Sophie de quatro anos, Íris de dois e o pequeno Shaul, de apenas alguns meses. Sua situação financeira era desastrosa.
Hoje, trinta e tal anos depois, Nádia faz um balanço de sua vida. Os anos felizes em que o casal viveu junto foram poucos e passaram como um relâmpago. O destino lhe reservou uma dura realidade de trinta pesados anos de solidão, sem ninguém para aconselha-la, orienta-la ou dividir com ela a responsabilidade da educação das três crianças.
Hoje os filhos, a quem Nádia se dedicou inteiramente, estão criados, casados e vivem perto da mãe, que desfruta da companhia dos seus quatro netinhos.
Lembrar de Elie lhe desperta ainda a mesma dor e emoção. Conheceram-se em 1959. Ele estava com trinta e quatro anos e tinha chegado a Israel, do Egito, havia apenas dois anos. Casaram-se depois de um breve namoro e, um ano depois, nasceu a primeira filha. Elie já devia estar trabalhando para o serviço secreto pois, quatro meses depois, em 1960, foi à Argentina construir a sua "fachada".
Alegava à família que viajava à Europa para comprar peças de armamento e que logo esse período passaria e eles estariam novamente reunidos. Ninguém podia duvidar de suas palavras. Era uma pessoa otimista, calma e amorosa, que tinha grande prazer no convívio familiar.
Em 1961, depois que Elie voltou da primeira missão em Damasco, Nádia começou a desconfiar da aura de mistério que cercava o trabalho do marido e a estranhar as maneiras cada vez mais orientais e as atitudes cada vez mais árabes do seu companheiro, enquanto ele parecia tão europeu quando se casaram. Nádia imaginava que Elie estivesse trabalhando no Egito, e nunca na impenetrável Síria, embora ele tivesse começado a falar com sua mãe em dialeto sírio.
Em Março de 1963, uma revolução na Síria levou ao poder o partido baath e à presidência Amin El Hafez. Os melhores amigos de Elie Cohen aliás Kamel Amin Tabet, tornaram-se ministros e Presidente da República.
Em 1961, depois que Elie voltou da primeira missão em Damasco, Nádia começou a desconfiar. E agora, era o próprio partido e seus líderes que precisavam de pessoas como Elie, de seus conhecimentos e dinheiro. Se antes era ele quem se esforçava para agradar o regime, agora parecia ser o contrário. As informações fluíam livre e espontaneamente e ninguém hesitava em revelar-lhe o que sabia. Esperavam que ele usasse sua influência no exterior para arrecadar dinheiro e ajudar a consolidar o partido e o país. Foi o único civil convidado, por três vezes, a visitar as fortificações das fronteiras com Israel.
Elie começou, então, a transmitir para Israel com maior frequência informações preciosas sobre operações estratégicas, planos de armamento e posições das áreas de defesa.
Algumas das notícias por ele transmitidas eram divulgadas pela imprensa ou pela rádio israelense, antes ainda que fossem do conhecimento das lideranças sírias.
Quando o presidente El Hafez descobriu que havia um vazamento de notícias da cúpula do regime, ordenou uma investigação secreta para desmascarar o traidor.
Em outubro de 1964, Elie sentiu que seus amigos estavam tornando-se cada vez mais fechados e que havia um clima de desconfiança geral. Assim, preferiu sair da Síria e voltar para sua casa. Foi sua última volta ao lar. Teve a felicidade de estar presente durante o nascimento de seu filho Shaul e de seu Brit Milá. Estava triste e manifestou o desejo de interromper suas viagens constantes, mas estava comprometido até maio de 1965. Assim, duas semanas depois, voltou à Síria, onde foi recebido friamente pelos seus amigos.
Esforços de Israel para salvar a pele de seu querido espião foram infrutíferos
Em janeiro de 1965, enquanto Elie Cohen transmitia informações para Tel Aviv, foi detido pelas autoridades sírias que o localizaram graças a um blecaute, que havia sido instaurado secretamente.

Ninguém queria nem podia acreditar que Kamel (Elie), o querido do governo, candidato a ministro do partido Baath, milionário invejado por todos e admirado filantropo fosse um espião israelense. Assim que Elie foi preso, Israel iniciou uma campanha sem precedentes para salvar sua vida. Nádia foi mandada a Paris com suas crianças e liderou uma gigantesca conferência de imprensa, na qual declarou que seu marido era vítima de uma conspiração e que faria qualquer coisa para salva-lo.
A foto de Nádia com as crianças no colo conquistou a simpatia da França e de toda Europa, e sensibilizou a opinião pública. Para defender Elie, foi contratado um dos principais advogados da França, Jacques Mercier. Este, apesar de não ter poupado esforços, nunca conseguiu ver o acusado nem durante os interrogatórios ou durante o processo, e nem mesmo antes da execução. Das autoridades sírias, somente recebeu portas fechadas e promessas não cumpridas. O processo foi uma farsa: na única pessoa do oficial de justiça se concentravam os papéis do juiz, do investigador, e do acusador; Elie Cohen, não tinha defesa. Além do mais, no intervalo das sessões, era brutalmente torturado.
Quando a sentença de morte foi oficialmente pronunciada, Israel agitou novamente sua máquina de propaganda e mobilizou todas as conexões possíveis.
Intercederam a favor dele o Papa Paulo VI, o General de Gaulle, a Rainha-mãe da Bélgica, vários primeiros-ministros, ministros e políticos do mundo inteiro e organizações como a Cruz Vermelha. A Anistia Internacional mandou o seguinte telegrama a El Hafez: "Cohen não é um cidadão sírio. Nos países civilizados, espiões estrangeiros não são executados. Não houve nenhum caso de execução de espiões sírios presos em Israel". Mas a Síria ficou insensível a todos os apelos. O governo, profundamente enfraquecido, não podia ceder às pressões externas; ao contrário, queria embriagar com este caso as massas sedentas de sangue. No dia marcado para a execução, Elie pediu a presença de um Rabino e deixou uma carta para Nádia e às crianças.
"Minha amada Nádia, minha querida família,... espero que vocês continuem sempre juntos. Peço à minha esposa que me perdoe, que se cuide e que dê aos nossos filhos uma boa educação... Virá um dia em que eles se orgulharão de mim. E você, querida Nádia, está livre para casar de novo e dar a nossos filhos um pai. Peço-lhe que não chore o passado, mas olhe para o futuro. A você, mando meus últimos beijos. Reze pela minha alma". Imediatamente depois, Elie ficou sozinho com o grão Rabino de Damasco, Rav Nissim Andabo, e rezaram juntos "El Male Rahamim". O Rabino saiu de lá, com os olhos cheios de lágrimas.

Elie foi levado à praça, onde seria realizado o enforcamento. Havia centenas de pessoas enfurecidas, gritando: "Morte ao espião sionista". Elie subiu na forca como um herói, de cabeça erguida, orgulhoso e calmo. Nunca soube dos esforços feitos pelos seus familiares, pelo seu país e pelo mundo inteiro para salvar sua vida. As autoridades sírias sempre negaram a restituição de seu corpo a Israel. Recentemente, no trigésimo aniversário da sua morte, Nádia fez um último apelo em vão, ao Presidente Assad, para que ele lhe devolvesse os restos do marido. A contribuição de Elie Cohen para a vitória de Israel na guerra de 1967, foi decisiva. Sem este herói, e sua coragem é provável que a história tivesse seguido um outro rumo.

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