SEIS MESES DE PRISÃO SUSPENSA POR OFENDER PASSOS COELHO NO PARLAMENTO
Mário Carvalho Jesus |
O homem que há um ano e meio interrompeu um debate quinzenal na
Assembleia da República (AR), durante o qual o então primeiro-ministro Passos
Coelho explicava uma alegada dívida à Segurança Social, foi condenado a uma
pena de seis meses de prisão, suspensa por um ano.
Por Nuno Miguel Ropio
Fonte: JN
Trata-se da
mais dura sentença para quem engrossou os muitos protestos que encheram as
galerias parlamentares durante o Governo PSD/CDS. Mário Carvalho Jesus só não
foi mais penalizado porque as Varas Criminais de Lisboa não conseguiram
perceber com exatidão que ofensas gritou.
Pelas 17.30
horas do dia 11 de março de 2015, Mário era um homem desesperado: aos 55 anos,
desempregado, não recebia qualquer subsídio e vivia à custa do pai e da
namorada. Após uma semana a ouvir notícias da falta de pagamento das
contribuições à Segurança Social do chefe do Governo, decidiu ir assistir à
explicação de Passos.
"Estava
revoltado com tudo aquilo. Comecei a trabalhar aos 13 anos, como soldador,
porque o dinheiro em casa não era muito. Tinha de ouvir ali como é que alguém
ia defender-se daquela vergonha", explicou, ao JN.
Naquela
tarde, um grupo dos Precários Inflexíveis já tinha sido retirado pela PSP da
sessão plenária, após gritar para o líder social--democrata "metes nojo ao
povo". Passos acabou de responder às questões do presidente da bancada do
PSD, Luís Montenegro, quando Mário se levantou na galeria e soltou palavras de
ordem.
A então
presidente da AR, Assunção Esteves, ordenou a sua retirada imediata e os
trabalhos acabaram suspensos dez minutos. Na sentença, a que o JN teve acesso,
o coletivo de juízes refere que ficou provado que "os nervos dele eram
tantos que não se percebia o que dizia". E que se agarrou ao varandim,
quando os agentes o tentaram retirar. Também não foi possível perceber se
interrompeu Passos.
A 13 de
julho último, a pequena instância das Varas Criminais puniu Mário por ter
parado os trabalhos do Parlamento. Pelo crime de perturbação do funcionamento
de órgão constitucional, que o Código Penal estabelece num máximo de três anos,
apanhou seis meses de prisão suspensa. "Importa reforçar junto do arguido
que existem locais próprios para levar a cabo atividade política, levantar
protestos e fazer ouvir o descontentamento, por um lado. Por outro, o exercício
dos nossos direitos fora das condições legais ou de razoabilidade para os quais
foram desenhados, pensados e consagrados, torna-se em abuso", alegaram os
juízes na sentença, admitindo "a espinhosa tarefa de tentar reforçar o bem
jurídico em causa e levar à compreensão do arguido as consequências
nefastas".
Proposta de acordo
Segundo
Mário, ainda na fase de inquérito terá sido proposto um acordo. "Poderia
ter pago 250 euros a uma instituição de caridade ou realizado 40 horas de
trabalho comunitário. Mas achei que não deveria assumir-me culpado por mostrar
o meu descontentamento na casa da democracia", disse.
O tribunal
refere, no final da sentença, que se esforçou por não "beliscar" nem
a "atividade política" nem o "direito ao protesto" de
Mário. E não o transformar num "exemplo de tutela feroz, pró-ativa e
esmagadora".
A verdade é
que o caso do soldador - que acredita que "o país agora até está
diferente" - surgiu numa altura de protestos constantes no Parlamento.
Assunção Esteves, que foi apontada por ter mão pesada para com quem interrompia
as sessões, pediu aos partidos que aprovassem regras de acesso ao hemiciclo.
Pouco mudou. Um mês depois do protesto de Mário, a Direita, em conferência de
líderes, aprovou que os convidados dos deputados passassem a ter de se
identificar no acesso aos plenários.
Ao JN,
Mário, que se mantém desempregado e ainda não decidiu se vai recorrer da
decisão, revelou parte do que disse naquela tarde e que ninguém percebeu:
"Não podemos permitir que os nossos carrascos nos criem maus
costumes". Uma frase da filósofa Simone de Beauvoir, que a própria Assunção
Esteves invocara, em 2013, para travar protestos na AR e que a colocou debaixo
de fogo da Esquerda, por deturpar o seu simbolismo.
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